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Renata Sobreira Uliana, 49, professora de yoga, conta usar incenso
todos os dias no altar que tem em sua casa |
Usado desde a
Antigüidade com sentido de purificação e proteção, o incenso acaba de
receber sinal vermelho da Pro Teste, a Associação Brasileira de Defesa
do Consumidor. Cinco marcas avaliadas mostram que daquela fumacinha,
aparentemente inocente, exalam substâncias altamente tóxicas.
Queimando um incenso todos os dias, por exemplo, a pessoa inala a
mesma quantidade de benzeno -substância cancerígena- contida em três
cigarros, ou seja, em torno de 180 microgramas por metro cúbico. Há
também alta concentração de formol, cerca de 20 microgramas por metro
cúbico, que pode irritar as mucosas.
As substâncias nem de longe lembram as especiarias aromáticas com as
quais o incenso era fabricado no passado, como gálbano, estoraque,
onicha e olíbano. Se há uma leve semelhança, ela reside na forma
obscura da fabricação. No passado, o incenso era preparado
secretamente por sacerdotes.
Hoje, o consumidor também não é informado como esses produtos são
feitos e quais substâncias está inalando. O motivo é simples: por
falta de regulamentação própria, os fabricantes de incenso não são
obrigados a fazer isso.
Nas cinco marcas avaliadas (Agni Zen, Big Bran, Golden, Hem e
Mahalakshimi), todas indianas, não há sequer o nome do distribuidor
brasileiro na embalagem. Muito menos a descrição de quais substâncias
compõem o produto. A Folha tentou localizar as empresas, por meio dos
nomes dos incensos, mas, assim como a Pro Teste, não teve sucesso.
A avaliação foi feita a
partir da simulação do uso em ambiente parecido com uma sala. Segundo
a Pro Teste, foi medida a emissão de poluentes VOCs (compostos
orgânicos voláteis) e de substâncias passíveis de causar alergias,
como benzeno e formol. As concentrações foram medidas após meia hora
do acendimento.
Maria Inês Dolci,
coordenadora institucional da Pro Teste e colunista da Folha, alerta
que os aromatizadores de ambiente, como o incenso, são vendidos sem
regulamentação ou fiscalização, o que representa perigo à saúde.
"Os consumidores pensam
que se trata de produtos inofensivos, que trazem harmonia e, na
verdade, estão inalando substâncias altamente tóxicas e até
cancerígenas."
A Pro Teste reivindica
que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) faça um estudo
sobre o impacto dos produtos na saúde e elabore regulamentação para a
produção, importação e venda no Brasil.
Consumidora
"Estou surpresa. Acendo
incensos diariamente há 20 anos no momento em que faço minhas preces
no altar budista que tenho na sala. É uma forma de agradecimento às
divindades e de limpeza energética. Jamais pensei que eles pudessem
fazer mais mal do que bem", diz Renata Sobreira Uliana, 49.
O resultado dos testes
também surpreendeu os médicos. "Nunca li nenhum artigo científico a
respeito disso, mas é um dado muito interessante, que vai fazer a
gente repensar a forma de liberar esse tipo de produto", diz José
Eduardo Delfini Cançado, presidente da Sociedade Paulista de
Pneumologia.
Clystenes Soares Silva,
pneumologista da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica
que nem pessoas predispostas a desenvolver quadros alérgicos (como
rinite e asma) nem pessoas saudáveis devem se expor aos incensos.
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